Não tínhamos bem a noção, mas das 4 horas de viagem até Singapura, 3h30m são em solo da Malásia, e só mesmo no fim entramos em Singapura. O caminho é todo em autoestradas muito congestionadas, mas sempre a andar a bom ritmo. Vimos bastantes acidentes, tanto de um lado como do outro, o que sempre abrandava um bocado o andamento. Já é a sétima vez que passamos uma fronteira nestes últimos 3 meses, mas em cada uma há novidades. Nesta, à saída da Malásia temos de sair do autocarro, subir ao primeiro andar para carimbar o passaporte, e voltar ao autocarro que entretanto avança para outra paragem. Problema: ao voltar a descer, há dois terminais possíveis onde ele pode estar à nossa espera, e o condutor “esqueceu-se” de nos avisar desse pormenor. Iam uns portugueses recém casados no nosso autocarro e ficámos os quatro a tirar à sorte quais as escadas a descer. Felizmente correu bem e acertámos à primeira! O autocarro segue e atravessa uma ponte que, segundo o condutor, mesmo a meio passamos da Malásia para Singapura.

Para a entrada em Singapura temos de levar todas as malas connosco, mas tirando isso é tudo feito sem problemas, sem custos, numa sala com dezenas de guichets de entrada, e com polícias muito simpáticos. Os primeiros sinais de uma Ásia diferente, ou como os nossos novos amigos tugas que moram na Suíça disseram…”Estamos a entrar na Suíça do Sudeste Asiático.” Tínhamos sido avisados, tanto no momento da compra dos bilhetes, como pelo condutor à saída do autocarro, que o autocarro não esperaria mais de 20 minutos para os passageiros atravessarem a fronteira. E, apesar do autocarro ter esperado mais de meia hora, foi isso que aconteceu. Alguns ficaram apeados, mas Singapura é mesmo pequena e é fácil ir da fronteira até ao centro.
Já do outro lado, começámos a ver filas intermináveis de carros e motas à espera para atravessar a fronteira. São 18h e todos os Malaios que trabalham em Singapura estão a voltar para casa. Parece Macau e Hong Kong, em que muitos vivem na China e atravessam a fronteira todos os dias…que paciência! Há mesmo muita gente que trabalha aqui e mora na Malásia, porque os ordenados são bem mais elevados. O condutor disse-nos que, por exemplo, alguém com o mesmo emprego que ele, ganha mais do dobro em Singapura…Os últimos minutos até ao destino final do nosso autocarro, o centro comercial City Plaza nos arredores da cidade, foram feitos entre avenidas de 6 faixas, estranhamente sem grande trânsito apesar da hora de ponta, e em que basicamente só vimos centros comerciais e grandes blocos de prédios residenciais. Não foi uma óptima primeira impressão…

Saídos do autocarro, despedimo-nos dos tugas, e entre ficar na conversa com o condutor, trocar dinheiro, e apanhar o autocarro 197 para a zona de Clark Quay, chegámos ao Hostel já de noite. Os preços dos hotéis em Singapura são…absurdos! Beliches a pelo menos 25€ por pessoa, quartos duplos em hotéis manhosos a 75€ por noite, e por aí fora. Nesta semana de Ramadão piorou porque com os feriados e férias, está quase tudo esgotado! Mas conseguimos uns beliches na Rucksack Hostel@HongKong Street a 21,80SGD por pessoa, e com pequeno almoço incluído, uma verdadeira “pechincha”. Marcámos só a primeira noite, porque apesar das boas reviews, queríamos ver para crer. Mas depois de instalados nos nossos beliches, pareceu-nos bom e acabámos por marcar logo as duas últimas noites, antes que esgotasse.

Como já era tarde e estávamos cheios de fome, fomos até à China Town que fica a 5 minutos do hotel procurar qualquer coisa para comer. Se os preços da comida no sul da Tailândia já não eram espectaculares, e na Malásia ainda menos, em Singapura nem se fala…Assim, acabámos por jantar num restaurante chinês por 20SGD (+-14€), mas em que a comida era óptima! Boa maneira de nos voltarmos a habituar aos preços de Portugal…


Tívemos dois dias e meio para ver Singapura, antes de apanhar o avião de volta para Portugal, o que nós achámos ser mais que suficiente para ficar a conhecer minimamente a cidade. E no primeiro dia tivemos um golpe de sorte…do nada, uma família alemã veio ter conosco e ofereceu-nos 4 bilhetes para os autocarros Hop On Hop Off. Tinham comprado de manhã para dar uma volta à cidade, antes de apanharem o avião à hora de almoço. A 33SGD por bilhete, pagar 132SGD (perto de 100€) para dar uma volta de autocarro de 1 hora por Singapura não é para todos…mas nós agradecemos! 😉 Como não podia deixar de ser, o primeiro destino teve de ser a Little India. Apesar de não ter, ou de não se sentir, tanta alma, como outras que visitámos, é um bairro colorido, cheio de gente, e com lojas e mercados com produtos indianos por todo o lado. Tem também um bonito e muito movimentado templo Hindu, o Sri Veeramakaliamman Temple. E, como não podia deixar de ser, tem óptimos restaurantes indianos!







Outra paragem obrigatória, e não muito longe da Little India, é o bairro Árabe em Kampong Glam, mais conhecido por Arab Street. Com uma enorme mesquita mesmo no meio, a Sultan Mosque, é um bonito bairro com casas típicas e antigas. Tem também várias ruas e uma zona pedonal cheia de lojas de souvenirs, lojas trendy e muitos bares e restaurantes mais hippies. É uma zona muito descontraída, um ponto de encontro de pessoas um pouco de todo o lado, e onde apetece ficar a relaxar, a beber um copo e a ouvir música numa qualquer esplanada.




Entre estes dois bairros, fica a zona de Bugis Street, uma enorme zona comercial cheia de centros comerciais e barraquinhas em ruas pedonais, onde se encontra de tudo um pouco, desde comidas a artigos de luxo verdadeiros e as respectivas imitações baratas, e muitos souvenirs. E gente, muita gente a comprar ou apenas a passear. Também não muito longe fica a Orchard Road, uma rua com 2,2km de centros comerciais, restaurante e hóteis, que ocupam uma área de 800.000m2!


Outra zona típica e bastante comercial é a China Town. Perdemos a conta aos vários centros comerciais, muitos deles interligados por pontes aéreas, uns mais recentes com lojas chiques e restaurantes caros, e outros mais antigos com lojas de roupa chinesa, inúmeras agências de viagens, algumas com call centers lá dentro, e várias agências de emprego com aspecto duvidoso. Mas a China Town tem também sítios mais típicos como a Pagoda e a Temple Street. Ruas pedonais decoradas com balões chineses pendurados por todo o lado, e cheias de restaurantes chineses e lojas de souvenirs. Temos de admitir, até eu que enjôo rapidamente de comida chinesa, que os restaurantes aqui na China Town servem comida muito boa, e em doses bem grandes. Ficámos fãs do Oriental Chinese Restaurant @ 195 New Bridge Road e acabámos por comer lá mais que uma vez.



Mas, para nós, o ponto alto desta China Town foi mesmo o gigantesco Buddha Tooth Relic Temple and Museum. Ocupa metade de um quarteirão, e são 6 andares de templos, museus, exposições e jardins! Apesar de ser mega luxuoso, e de ter custado 75 milhões de dólares de Singapura a ser construído, o que não combina muito bem com os ideais do Budismo a que estamos habituados, é realmente majestoso e bonito, com muitos artefactos e muita informação histórica sobre a religião Budista.


Inaugurado em 2007, este templo fica na mesma rua que a mesquita Jamae e muito perto da Igreja metodista de Fairfield, testemunho da boa convivência de religiões em Singapura.
A entrada para o templo são 3 enormes portas vermelhas, sendo que a do meio é reservada apenas para visitas importantes. Quando o visitámos, encontrámos o templo principal em hora de oração. É incrível assistir a estes cânticos budistas em que difícil mesmo é perceber em que altura da frase é que eles respiram. Monges de amarelo e muitas pessoas sentam-se em frente aos livros sagrados e recitam em coro e sem parar os mantras. Ao centro do altar está uma estátua dourada do Buddha Maitreya de 4 metros e meio, o Buddha do Futuro, que acreditam será o sucessor do Buddha histórico e que voltará um dia.

Subindo até à Mezzanine, a vista para o templo em baixo é ainda mais bonita com as suas centenas de pequenos budas nas paredes. Neste andar, visitamos o Museu de Cera com figuras de importantes monges locais e estrangeiros. As figuras, que também vimos na Tailândia, impressionam um bocado por serem tão “vivas”.


No 2°andar há uma área de exposições com esculturas e pinturas budistas que serve de introdução ao 3°andar onde dezenas de cartazes muito bem ordenados contam a história da vida do Buddha na primeira pessoa. É muito interessante e aprendemos muito nesta visita! Por exemplo, que nasceu fruto de um sonho que a mãe, a Rainha Maya, teve e que esta foi depois avisada, não por um anjo mas por um elefante branco, que ia dar à luz um grande líder. O Buddha, ou Príncipe Siddhartha Gautama, viveu uma vida jovem de folia, mulheres e riquezas. Casou, teve um filho e aos 29 anos percebeu que os bens materiais não lhe traziam a felicidade e saiu pelo mundo para perceber a existência humana, acabando por criar uma legião de crentes nos seus ensinamentos. Adorámos esta exposição!


Mas é no 4° andar que está o lugar mais importante e que dá o nome ao Templo. É no Sacred Light Hall, onde está o Sacred Buddha Tooth Relic Chamber! Numa stupa dourada, está guardado o dente sagrado do Buddha, uma zona interdita a fotos. E no último andar do templo, o Terraço. Aqui, já ao ar livre, há um jardim e no centro um alto pagode onde está uma Roda de Oração Budista: a Vairocana Buddha Prayer Wheel. É provavelmente a maior que vimos nesta viagem. Para os budistas, girar estas rodas ajuda a melhorar o Karma individual e a purificar as energias negativas.


Na cave do templo há ainda uma sala de audiovisuais que é alugada para conferências e actuações, e um restaurante vegetariano, o Five Insights Hall. Um mega templo que só podia ser em Singapura!

E depois temos claro o chamariz turístico da cidade que é toda a zona ribeirinha, desde Clark Quay até à Marina Bay. São 3,5km de zona pedonal, por entre o rio e os arranha céus das grandes empresas financeiras, bancos e hotéis que aqui existem, e que são a foto de capa de Singapura! Clark Quay é uma zona de restaurantes e bares sobre o rio Singapura, que todos os dias garante animação nocturna pela noite adentro. Aqui existe também o centro comercial Clarke Quay Central, que tem mesmo à porta a gelataria japonesa Azabu Sabo Hokkaido Ice Cream, onde fomos duas tardes seguidas comer um gelado enquanto apanhávamos sol à beira rio. Os gelados são óptimos, e para quem normalmente gosta de chá preto com leite, tem de provar o Milk Tea! O sabor é igual, mas melhor porque é em gelado! 🙂


Seguindo rio abaixo, chegamos à zona da Boat Quay, uma área ribeirinha com bons restaurantes e bares, para se jantar ou beber um copo depois do trabalho, até porque fica mesmo perto da zona financeira e dos seus muitos arranha-céus cheios de escritórios. Grandes empresas, bancos e agências financeiras têm as suas sedes nos inúmeros arranha-céus que compõem a baixa da cidade, e centros comerciais luxuosos, bem como hotéis de 5 estrelas, completam o resto dos espaços.



Os prédios estão virados para a Marina Bay, e numa das pontas da baía encontramos o símbolo da cidade, o Merlion, uma mistura de uma sereia (mermaid) com um leão (lion). O corpo de peixe tem origem no nome Temasek (Cidade Marinha), o primeio nome conhecido da cidade, enquanto que a cabeça de Leão simboliza o actual nome da cidade , Lion (Singa) e Cidade (Pura), por terem existido aqui muito leões no passado. Ao longe, do outro lado da baía vemos também o prédio mais famoso de Singapura, o hotel Marina Bay Sands. O conceito da zona de lazer e da infinity pool inseridos numa plataforma que liga o topo das 3 torres é interessante, mas visualmente o prédio não nos pareceu muito bonito. A culpa ainda deve ser das Petronas…



Podia ser que chegando mais perto fosse diferente, mas não…são mesmo 3 enormes torres de cimento com uma espécie de barco/prancha de cimento em cima. Mas por dentro é espectacular! Entrando pelo mega luxuoso centro comercial The Shoppes at Marina Bay Sands que serve o hotel, e subindo por uma escadaria vamos dar a uma plataforma que entra hotel adentro, atravessa de um lado ao outro, e sai do outro lado para um miradouro Virado para os “Gardens by the Bay”. Assim, temos uma visão elevada de todo o interior do hotel, e que hotel…até nos “apeteceu” sair da nossa Hostel e ficar lá umas noites, mas a partir de 600€/noite, sem pequeno almoço, deixámos para outra altura! 🙂 E em frente ao Centro Comercial, todos os dias às 20h, existe um espectáculo de água, luz e som que, com a baía e os arranha-céus como imagem de fundo, vale a pena ver.


Continuando em direcção ao mar, estão então os Gardens by the Bay, outro ex-líbris da cidade, e que foi de tudo o que mais gostámos. Criados em 2012, são um conjunto de jardins, alguns em enormes estufas e outros ao ar livre, com zonas de eventos e restauração, e que ocupam mais de 100 hectares junto à baía. Apesar de, como muito desta cidade, serem “man made” e artificiais, estes jardins são realmente diferentes de tudo o que já vimos, principalmente a Supertrees Grove. As Supertrees são 12 “árvores” de cimento e metal que medem entre 25 e 50 metros, cobertas por flores, plantas, luzes e células fotovoltaicas para recolha de energia solar. Um conceito estranho e futurístico, mas que cria um equilíbrio entre os jardins em seu redor e as torres altas da silhueta de Singapura. Duas das árvores maiores estão ligadas por uma passadeira aérea, a OCBC Skyway, que por 5SGD podemos subir e atravessar. Não é aconselhada para quem tem medo de alturas, ou tonturas, até porque pode abanar um bocado com o vento, mas garantidamente que é algo a fazer, principalmente às 19h45 ou às 20h45, quando há um espectáculo de luz e som. É assim algo de mágico e parece quase irreal, e foi um dos pontos altos da nossa estadia em Singapura.
Em frente ao The Shoppes, além do edíficio envidraçado da Louis Vitton, existe também um vanguardista edíficio que alberga o primeiro museu de ArtScience do mundo, um museu que celebra a criatividade, e que tenta perceber e explicar o que move as pessoas criativas, como elas adquirem e usam os seus skills, e qual o reflexo das suas acções na sociedade. O edifício por fora é algo de espectacular! Todo branco, é uma mistura de pétalas de lótus com 10 dedos da mão, que se erguem de uma base circular. E na ponta de cada “dedo”, existe uma clarabóia para iluminar as galerias no seu interior. Outra particularidade é que o tecto do museu está criado de modo a canalizar toda a água da chuva para um ponto central, criando uma queda de água de 35m para dentro de uma pequena piscina no átrio central, água esta que depois é reciclada e reutilizada. Mais uma vez, muito à frente! Ao lado, está outra maravilha arquitectónica e de engenharia, a Helix Bridge, uma ponte pedonal de 280m que liga a zona central à zona Sul da marina, e que foi construída com base na estrutura em espiral do ADN. E do outro lado da ponte, a Singapore Flyer, uma das maiores rodas gigantes do mundo, e 30m mais alta que a London Eye.



Vimos ainda a City Hall, o Civilian War Memorial, monumento construído em memória dos civis mortos durante a ocupação Japonesa de Singapura durante a Segunda Guerra Mundial, e a St Andrew’s Cathedral, a maior do país. Construída em 1836, por duas vezes foi danificada por raios eléctricos, o que resultou na sua demolição em 1855 por se achar que estava assombrada. Em 1861 foi construída uma nova, e que permanece até hoje.

Mas e afinal o que é Singapura? Singapura é uma pequena ilha cidade-estado, com várias outras ilhas mais pequenas à volta. Com uma área de 581.5 km2 em 1960, tem vindo a reclamar terra ao mar, tendo agora 718.3 km2 de área útil, e esperam ainda reclamar mais 100 km2 até 2030. Com 10% desta área reservada para jardins, parques e reservas naturais, está no Top5 do Index de Performance Ambiental, que mede a eficácia das políticas dos governos para um ambiente sustentável. Um dos países menos corruptos do mundo, com menos impostos (para empresas) e com menos desemprego. Um grande pólo de trocas comerciais, alberga mais de 7000 multinacionais. É também o 4º maior Centro Financeiro do mundo, o 2º maior mercado de jogo, um dos Top3 países a refinar petróleo, o maior construtor de plataformas petrolíferas, e um importante centro para reparação de navios. Recebe também mais de 15 milhões de turistas anualmente, dos quais 200.000 vêm para tratamentos médicos, e alberga milhares de estudantes internacionais, sendo todas as aulas no país dadas em Inglês.
Parece tudo óptimo à primeira vista, mas…é um país do Sudeste Asiático, com uma população (ainda) maioritariamente asiática e por isso com um modo de vida próprio da Ásia, mas onde está a tentar ser imposta, através de inúmeras leis rígidas e multas pesadas, uma disciplina e filosofia de vida e de sociedade que nada combina com os países à volta, e que mais se assemelha a uma Alemanha ou a um país nórdico. Ao contrário da Malásia, que tenta promover a igualdade e o respeito mútuo entre as diferentes comunidades, aqui, estão a tentar retirar a autenticidade e as características intrínsecas dos vários povos que ali co-habitam, e a transformá-los em robots todos iguais. Mas como a cultura asiática está tão enraizada e é tão diferente (e ainda bem!) da Ocidental, a única maneira que conseguiram para alterar alguns comportamentos foi através de leis rígidas, com multas e castigos severos. As leis e regras são tantas, e algumas tão absurdas, que mais cedo ou mais tarde dará asneira. Por exemplo, uma das coisas mais absurdas que ouvi é que, como as pessoas colavam pastilhas elásticas em sítios impróprios, foi criada uma lei a proibir a importação e venda de pastilha elástica em Singapura. Quem for apanhado pode ser multado em 1000SGD. É o chamado cortar o mal pela raíz, provalmente por um político que não gosta de pastilhas elásticas, e que por isso não se importa se há quem goste ou não…Podemos ser fisicamente castigados (vergastadas) se não puxarmos o autoclismo em casas de banho públicas. A homossexualidade pode dar até dois anos de prisão. Não se pode urinar em elevadores, que têm sensores de urina…?! Não se pode andar nú dentro de casa. Atravessar fora da passadeira dá até 1000SGD de multa ou 3 meses de cadeia…Oh senhores de Singapura, nos países à vossa volta os carros nem sequer param na passadeira para os peões passarem! O resultado prático desta “ditadura” é que a cidade é das cidades mais limpas do mundo, das que tem menos criminalidade, e das mais verdes que visitámos, mas também a mais artifical, excêntrica, intolerante e sem alma.
Singapura é também um país que promove as diferenças entre as classes sociais. Por exemplo, foram impostas pelo governo várias políticas de maneira a reduzir o número de carros nas estradas, que de base parece ser uma boa ideia. Mas uma das políticas consiste num sistema de leilão, onde as pessoas licitam a compra de licenças para poderem ter um carro por períodos de 10 anos. No mínimo, estas licenças custam 60.000SGD (40.000€) para um carro “normal”, o que faz com que só uma pequena parte da população (15%) tenha carro, e reservando este “luxo” apenas para pessoas com muito poder económico. Além disso, têm de pagar impostos brutais para o poderem comprar e registar, o que torna ter um carro um verdadeiro luxo, e uma fonte de muito descontentamento e revolta da população. Para termos melhor noção do que isto tudo implica: Um Renaut Megane 1.5DCi novo, que cá custa aproximadamente 24.000€, em Singapura acaba por custar 88.000€ (132.000SGD). Não admira que existam tantas casas de crédito e tantos tantos táxis por todo o lado em Singapura…!


As casas, em mega blocos de prédios, na sua maioria construídas e vendidas pelo governo também são caríssimas, e com mil e uma regras para se ter direito a aquirir uma. Existem também alguns empreendimentos privados, mas esses têm preços proibitivos só para algumas carteiras mais recheadas. E apesar da enorme riqueza de alguns, e do país atrair turistas de “luxo”, o dinheiro não chega para tudo. Em tão pouco espaço, existem tantas dezenas de centros comerciais (mais de cem!) e com preços tão altos, que existem muitas lojas fechadas, mesmo no mega luxuoso The Shoppes, alguns centros comerciais já fecharam de todo, e muitos outros estão com um aspecto degradado e moribundo. É um país que nos pareceu um conto de fadas envenenado. Exuberante, excêntrico, pomposo e luxuoso por um lado, mas por outro cheio de contradições, proibições e artificialidades. Mas não deixámos de adorar visitar Singapura por isso! Existem sítios que vale muito a pena conhecer, e de certeza que para muitas pessoas deve ser a melhor cidade do mundo. Mas para nós, depois de dois meses e meio de um Sudeste Asiático real, autêntico, “livre”, cheio de cores, sabores, cheiros, sensações, adrenalina, experiências, alegrias e tristezas, vimos Singapura como um acordar para a “estranha” realidade onde vivemos diariamente, e o fim desta nossa aventura. Sudeste Asiático, não mudes nunca e…até já!






1 comentário
E assim chega ao fim esta mega aventura 🙂 ficamos à espera da próxima 😉 Adorei “viajar” convosco :-*