Não costuma ser requisito na escolha dos nossos destinos, mas sempre que pelo mundo nos cruzamos com a história de Portugal, fazemos questão de lá dar um saltinho! Aprendemos sempre qualquer coisa sobre a passagem lusa por essas terras, embora fiquemos com a sensação que isso só é relembrado mesmo por “nós”. Mas é indiscutível que deixámos marcas um pouco por toda a parte deste globo! E isso, apesar de tudo, ainda me enche de orgulho patriota! 🙂
Hoje, decidimos relembrar aquelas cidades que ganharam lugar na nossa rota tão só e apenas porque algures na história ali se ouviu falar português! Nalgumas ainda se teima em pintar o galo de Barcelos, noutras ainda resiste a venda dos pasteis de nata aldrabados (ou dos portuguese egg tart!), mas em poucas se sente a alma portuguesa. Ainda assim, saímos de lá sempre felizes por ver com os nossos olhos o que foi e o que é hoje uma antiga terra lusa.
6 cidades que já foram Portuguesas
Goa, India
Sempre que ouvíamos falar em Goa, Damão e Diu associávamos de imediato à história redutora que nos ensinaram na escola: pequenas e longínquas cidades que foram portuguesas durante vários séculos, importantes na rota comercial das especiarias do Oriente. Bom, Goa é hoje tão mais do que isso! Quem viaja pela India e termina em Goa como nós, fica com a noção clara de que Goa não é só mais uma região indiana. Assim o é por todo o sul do país mas Goa é especial…ou se calhar é só especial para nós! Nós adorámos Goa! A ocupação portuguesa só terminou há 55 anos e, depois de 2 semanas a experimentar uma India fascinante de cores, cheiros (nem sempre bons ou, atrevo-me a dizer, quase nunca bons), barulho e desorganização impossível de descrever, chegámos a Goa e sentimo-nos em casa. Goa é verde, relaxada e do mais friendly que se pode encontrar na India. Não encontrámos portugueses, nem sequer em modo turista, e apesar de haver ainda tanta coisa escrita em português e dizerem que há quem fale um dialecto que soa a português, não nos cruzámos com quem arranhasse uma palavrinha da nossa língua. Famílias inteiras de apelido Pereira(!), jardins com nomes de personalidades portuguesas como Garcia de Orta, edíficios coloniais muito familiares, alguma coisa nossa na gastronomia, um núcleo sportinguista, igrejas católicas onde se reza com fervor a Nossa Senhora de Fátima e um típico “Café Central” esgotam a presença portuguesa nesta região. Ah, também é aqui o único lugar na Índia onde se celebra o Carnaval!
Naquela que foi a colónia portuguesa de maior duração, as referências são muitas e não deixam esquecer que aquelas ruas já foram nossas mas a verdadeira cultura portuguesa em Goa tem os dias contados.

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El Jadida, Marrocos
Quando chegamos à antiga cidade portuguesa de Mazagão, agora El Jadida, e nos deparamos com as muralhas e os canhões bem apontados, ficamos sem dúvidas da passagem lusa. As placas com os nomes das ruas ajudam a que não sobrem dúvidas, mais ainda quando avistamos a Rua Direita.
Além das muralhas bem preservadas, é na Cisterna Portuguesa em estilo gótico manuelino que se encontra o maior valor da nossa presença. Um mar de colunas e arcos num espaço escuro e húmido de uma tranquilidade que atrai. El Jadida é mais para além das muralhas mas não nos impressionou para fora delas. Ainda assim, de todos os sítios por onde passámos em Marrocos (nós, portugueses!) foi aqui que mais evidências encontrámos e onde mais se nota o esforço pela manutenção desta história.

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Galle, Sri Lanka
A cidade de Galle foi noutros tempos um dos principais portos na rota das especiairias entre Oriente e Ocidente. Hoje, é no forte da cidade de Galle que está a maior marca deixada pelos portugueses. Ainda assim, chamam-lhe ‘Forte Holandês’. Ficámos apreensivos de início mas percebemos que foram estes últimos que verdadeiramente fortificaram a cidade aumentando o que havíamos lá construído. A parte antiga da cidade, dentro das ditas muralhas, é hoje um autêntico cenário criado para turista ver. Cafés e hotéis boutique em casas coloniais holandesas “pintadas de fresco”, compõem as ruas arranjadas. O passeio é agradável, caminhando em cima do forte com vista exclusiva para o Indico mas em muito pouco mostra a realidade que se vive para lá das paredes do forte. Mas Galle lá fora é bem mais interessante e movimentado. Ainda assim, vale a pena a visita e a paragem para almoço no delicioso, fantástico, incrível restaurante Lucky Fort.

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Porto Seguro, Brasil
Um pouco por todo o Brasil encontramos marcas evidentes da colonização portuguesa que perduram até hoje e são já parte intrínseca da cultura daquele povo. Azulejos, pratos gastronómicos com cheirinho a paladar português, fortes e edíficos com traça nitidamente europeia. Mas em Porto Seguro, essa marca histórica é mais especial! Por ter sido o local de chegada dos portugueses ao Brasil em 1500, sente-se uma certa magia quando se pisa esta parte do território brasileiro. Digo eu que o senti… 🙂 A região do Estado da Bahia é, muito para além de uma zona de praias maravilhosas, uma zona cheia de história que nos diz muito e, por isso, entre mergulhos vale a pena explorar. Visitar a Cidade Alta de Porto Seguro, que é hoje património histórico, é obrigatório e por lá se encontram as nossas marcas mais imponentes. Um Marco dos Descobrimentos ainda erguido, casas coloniais que eram antigos edifícios administrativos portugueses e umas quantas capelas e igrejas são exemplares que nos trazem de regresso a casa mais cedo. A alguns km de Porto Seguro, na Praia da Coroa Vermelha, uma enorme cruz assinala o local onde foi rezada a primeira missa nas terras de Vera Cruz. Por aqui se sente alma lusa, mas a língua que é falada ajuda, claro! 🙂

Macau, China
Macau era um fascínio que eu tinha desde criança e confesso que a expectativa estava tão alta que me senti um pouco ou nada desiludida quando lá cheguei. Macau foi português no papel até 1999 mas na prática é chinês há séculos! Ainda assim, não há rua sem nome em português, não há casa sem pastel de nata e até os autocarros dizem cada paragem em português. O casino com o nome Lisboa, a sinalização pública, as fardas oficiais, as estátuas de navegadores portugueses e de Camões, e várias fortificações de defesa relembram também a nossa estadia naquelas bandas. Tudo o resto é chinês: a azáfama, a densidade populacional impossível, a língua que se ouve e os bairros residenciais feios e apinhados de casas estreitas e desordenadas onde vivem famílias inteiras. Macau é desconcertante porque é palco de contrários que não convencem. Por um lado, o Macau dos casinos (até um que é uma Veneza inteira!) cheios de luxo, das casas de arquitectura europeia, a escadaria que sempre fascina das ruínas da Catedral de São Paulo, as lojas de souvenirs imaculadas; por outro, ruas sujas em bairros por norma desaconselhados. Resta absover de tudo um pouco e tirar conclusões à mesa do Restaurante português Santos em Macau, na ilha de Taipa! Depois de 3 semanas de comida chinesa banhada em molho de soja, aquele arroz de cabidela, sumol de laranja e Água das Pedras foi um grande energizante! Apesar de tudo, quando às portas do Forte do Monte lemos esta placa, sentimos que Macau ainda é um bocadinho nosso! 🙂

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Malaca, Malásia
Malaca foi talvez o ponto menos alto da nossa viagem pela Malásia. Prefiro pensar que isso nada tem a ver com a passagem ‘tuga por lá! 🙂 Íamos, como sempre, cheios de expectativa mas a realidade aldrabada da cidade não nos impressionou muito. Cheia de monumentos históricos, com marcas evidentes portuguesas e holandesas, a cidade gira demasiado em torno do turista malaio e estrangeiro, o que faz dela um cenário muito pouco natural. Malaca até tem um Hard Rock!
Mas as marcas portuguesas são outras! Da fortaleza, a que demos o nome “A Famosa”, depois da destruição holandesa resta apenas uma das portas, a Porta de Santiago. Das muitas igrejas pouco resta mas as ruínas da Igreja de São Paulo onde foi sepultado o jesuíta São Francisco Xavier é um dos pontos de visita mais importantes de Malaca. Impossível também é não reparar na réplica em tamanho real da Flor do Mar, a famosa nau de Afonso de Albuquerque que se afundou à saída de Malaca, que é hoje um museu marítimo, e que nos faz sentir bem no centro da cidade a ligação lusa a esta terra.
Mas, na verdade, a maior resistência da cultura portuguesa encontra-se mais afastada do centro, no Bairro Português de Malaca. Ali, todas as vivendas podiam fazer parte de um qualquer bairro dos arredores de Lisboa. Ali não há mesquitas, as estátuas de Nossa Senhora multiplicam-se nas janelas e os restaurantes afirmam todos ter os pratos mais típicos de Portugal. Na verdade, nas ementas vimos caril, gengibre e arroz frito mas se quisermos ser simpáticos podemos associar-nos aos outros pratos de peixe e marisco. 😉 É neste bairro português que vivem os Kristang, oriundos da mistura entre portugueses e malaios. Dizem eles que falam um crioulo que mistura o português e o malaio, mas nada nos soou familiar.
Seja por interesses económicos ou por outra razão qualquer, a ideia é manter esta ligação a Portugal, tanto que o governo malaio assegura que as casas deste bairro apenas podem ser vendidas a famílias de ascendência portuguesa, para se poder manter a toponímia. Seja como for, a verdade é que por aqui ainda se festejam o Carnaval e os Santos Populares!

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E são estas as cidades onde mais sentimos a história portuguesa, mas há muito mais “mundo português” por descobrir! A alma lusa, essa, vai connosco! 😉