Depois da aventura de Pondicherry, o plano era seguir para Madurai. Feitas as contas percebemos que os dias tinham voado e já não teríamos tempo para fazer o itinerário completo. Na verdade, depois da grande viagem dos 3 meses pelo sudeste asiático, já não é tão fácil encaixar tudo o que queremos em 15 dias. Ficámos mal habituados. Ainda mais na Índia onde é tão fácil distrairmo-nos com as horas. Podia mesmo jurar que o tempo aqui passa mesmo mais depressa.
Lá cortámos Madurai do plano (estas decisões são sempre tão difíceis!) e decidimos seguir para Munnar, uma das terras do chá indiano. Isto significava fazer 500 km da costa até aos 1.600 metros de altitude no meio das montanhas Western Ghats. Devemos ter olhado para o mapa umas dezenas de vezes, seguido com o dedo a linha preta do comboio outras tantas, pesquisado na internet onde um mundo de respostas se contradizem… não estava fácil percebermos como chegar até Munnar. Isto dos transportes na Índia é um mundo e daqueles bem complexos!
Optámos pelo comboio para a partida e fomos até à estação de Pondicherry decididos a dar a volta que a nós nos parecia a mais óbvia. Ora, na Índia o nosso óbvio é raramente a escolha acertada…
A fila na estação, ainda à conta da crise das rupias, era mais uma vez longa mas não tínhamos outra hipótese senão esperar. De folha na mão, onde escrevemos a lista de nomes das terras por onde queríamos ir, esperávamos pacientes numa daquelas filas a que este país nos habituou. Não é indiana, não é justa…é de quem tem mais urgência e de quem é mais esperto! Passada uma meia hora de espera já somos íntimos dos colegas de fila e o da frente pergunta curioso para onde queremos ir. “Munnar”, sorrimos nós orgulhosos de sabermos a resposta e até como se vai até lá. 🙂
O professor universitário reagiu à nossa resposta com um sorriso meio de troça. Explicou-nos que se fôssemos de comboio teríamos que fazer uma série de trocas e depois ainda uma longa viagem de autocarro. Sacou da nossa caneta e do nosso papel e escreveu: Dindigul, Theni, Munnar! Óbvio! Escreveu ainda o nome e o número de telefone porque tinha a certeza que nos íamos perder pelo caminho (:P) e mandou-nos para a estação dos autocarros.
Corremos os guichets todos da estação e ninguém sabia da existência de uma rota directa para Dindigul. Estávamos confiantes que a nossa fonte sabia do que falava, por isso decidimos bater à porta de agências de viagens e companhias de autocarros privados. Num país tão extenso, onde a população se desloca em massa diariamente, há sempre lugar para mais um autocarro, e há sempre lugar…pelo menos quando não esgota! 😛
Corremos algumas até encontrarmos uma que fizesse a rota Pondicherry – Dindigul. Lá conseguimos comprar a nossa viagem num autocarro Deluxe (!) com partida marcada para as 21h. A essa hora, lá estávamos de volta na sala de espera para seguir viagem. Surpresa, era um sleeper bus e até aqui nada de novo. Mas era um sleeper bus com beliches individuais de um lado e beliches de casal do outro! 🙂
Foram 7 horas de uma viagem muito mais tranquila do que estávamos à espera e ainda dormimos um bocadinho. Já a chegada a Dindigul, às 5 da manhã, não foi linear. O autocarro não parou na estação e encontrar o rumo numa cidade às escuras totalmente desconhecida foi outra aventura.
Quando finalmente demos com a estação de Dindigul ainda estávamos a meia luz e a vista não era bonita. Vários sem-abrigo a dormir no chão pelo meio de um mercado que dava ares de já estar aberto há horas, ou será que nem fechou? Seja como for, deu aso ao primeiro snack do dia, logo que encontrámos um vendedor acordado 🙂
É de madrugada, mas já se vêem autocarros a entrar e a sair com homens pendurados nas portas a gritar nomes de terras de uma forma que a nós nos parece aleatória. Pomos o ouvido alerta e lá encontramos o grito que queríamos: Theni!
O autocarro é moderno e do mais colorido que já andámos por estas bandas mas a música vai tão alta que, apesar da hora, ninguém se atreve a fechar os olhos. Esta era para ser uma viagem mais curta, mas os 80 km tornaram-se numas difíceis 3 horas ao som de um filme de Bollywood, um bocadinho ensurdecedor, como são e devem ser todos. Ainda assim, fomos pestanejando…
Finalmente, chegámos a Theni. Faltava apenas o último trajecto até Munnar, agora sim, montanha acima. Por esta altura, já nos questionávamos se a ideia do nosso amigo teria sido a melhor. Suspiramos, afinal já estamos perto!
O autocarro para Munnar ainda não chegou à estação e esta espera teima em ser dolorosa com pálpebras pesadas a pedir dormida. Acho que dormitei no banco da estação até à chegada do autocarro verde, daqueles velhinhos a pedir reforma, sem janelas, apenas grades e meia porta.
A primeira parte da viagem não foi nada fácil. Até que fizemos uma paragem a meio, no exacto sítio onde o distrito de Tamil Nadu termina e entramos no distrito de Kerala, com cancela e tudo. Tal como uma verdadeira fronteira, os passageiros saem todos e correm até ao café para se atirarem ao Massala Tea, o chá das especiarias, que segundo o João é “o melhor chá à face da terra”! 😉

Quase em Munnar
Mal sabíamos nós que estávamos a entrar na parte mais bonita desta longa viagem até Munnar. Numa estrada em bom estado, mas cheia de curvas e precipícios, recordávamos então a verdadeira razão porque pusemos esta região no nosso mapa. E, finalmente, demos graças pela falta de portas e janelas que não fazem falta nenhuma nestes autocarros.

Umas 14 horas depois de termos iniciado esta parte da viagem, chegámos a Munnar cansados mas felizes! Depois dos campos de chá na viagem ao Sri Lanka, mais uma terra do chá a fascinar.
Fica connosco e descobre tudo sobre Munnar no próximo post!










