De Chennai para Mahabalipuram
Depois de um pequeno almoço bem reforçado em Chennai, como manda a moda indiana, era tempo de colocar a mochila às costas e seguir caminho. O destino: Mahabalipuram!
Mahabalipuram não tem estação de comboio por isso optámos por fazer os 60 km desde Chennai no autocarro 599 que vai junto à costa e oferece vistas bonitas que sempre vão distraindo do imenso desconforto que é este prometido ‘deluxe bus’. 🙂 Tão promissor que nos deixou nada mais nada menos que num entroncamento em plena auto-estrada, logo ali onde se tem de virar à esquerda para entrar na cidade (o que não lhes dava jeito nenhum!). Feliz, ou infelizmente, é prática comum e logo ali encostados vários tuk tuks esperam ansiosos por viajantes desprevenidos.
Pedimos que nos deixasse bem no centro de Mahabalipuram e começámos a nossa caça à dormida. A cidade é uma Albufeira bem pequenina e bem disfarçada, ruas e mais ruas cheias de lojas e cafés esforçados, muito diferente do esperado numa terra indiana porque são altamente estilizados para turistas. Casas baixas, cada uma é uma guesthouse ou loja de souvenirs. É uma terra que de certeza enche em época alta, pelo menos está preparada para isso, mas nesta altura, pouca gente passa nas ruas e os lojistas levantam-se e correm para nós mal nos vêem chegar. Soa ou não à Rua da Oura? 😉
Temos de começar por algum lado, e escolhemos a Vionodhara Guesthouse. Mostram-nos 3 quartos, há preços para todos os gostos e, ao contrário do que é nosso costume, acabamos por ficar mesmo ali sem ver outras opções. Digamos que o proprietário era muito insistente, um verdadeiro Mahab, como se chamam os locais por aqui. 🙂


Com dormida assegurada, e peso nas costas aliviado, é hora de aliviar também a fome que em país de caril teima em aparecer mais vezes! Não fôssemos nós um bocadinho fanáticos das especiarias. 🙂
Mahabalipuram
Numa volta rápida pela pequena cidade, apercebemo-nos que Mahabalipuram está realmente feita para turistas. No chamado “traveller ghetto of Othavadai” há crepes e hamburgueres de todos os tipos e até cappucinos com promessa de espuma, mas os verdadeiros sabores indianos não foram fáceis de encontrar. Como não desistimos facilmente lá demos com um Hotel local (por aqui hotel nem sempre é hotel mas sim restaurante) com o verdadeiro Thali em folha de bananeira e sem opção de talheres ou mão esquerda. Tudo como é suposto e, diz quem sabe, como sabe melhor! 🙂


Agora sim, estávamos prontos para visitar as maravilhas que os guias prometem surpreender na visita à cidade dos templos: Mahabalipuram ou Mamallapuram!
Os Templos de Mahabalipuram
Mahabalipuram foi, entre os séculos VII e VIII, um dos mais importantes portos no sul da India. Contudo, a história da cidade permanece ainda um enigma. Ninguém sabe porque é que a dinastia Pallava se dedicou tanto a esta região construindo um museu a céu aberto de templos incríveis que foram depois abandonados debaixo do mesmo mistério, mas a verdade é que há aqui dos monumentos cravados em rochas do mais bonito que já vimos por esse mundo fora.
O facto da cidade ser balnear e o mar dar sempre uma ajuda, mas os detalhes nas rochas seculares são tão fascinantes que uma pessoa facilmente perde uns dias a querer reparar e memorizar tudo! Mas o bilhete para a visita ao complexo não deixa que uma pessoa se distraia pois é válido apenas para o próprio dia. Costumava ser 250 rupias mas ao que parece o preço foi revisto. O bilhete esse é o mesmo, espetaram-lhe apenas um carimbo em cima e pronto, passou para o dobro. São 500 as rúpias a deixar agora pelos estrangeiros à entrada.

Reconhecidas pela UNESCO como Património Mundial em 1984, as várias relíquias arqueológicas estão espalhadas ao longo de alguns quilómetros ao redor de Mahabalipuram que nós decidimos percorrer a pé mas que se fazem bem de bicicleta ou de tuk tuk pré acordado para o tour.
A estrela de todo o complexo , embora não tenha sido a nossa preferida, é o Shore Temple. Na praia, bem junto à maré da baía de Bengal, este templo compensa o seu pequeno tamanho com pormenores cravados na rocha. Infelizmente, estes tendem a perder-se pois é dos templos que mais sofre com a erosão por estar tão perto do mar.
Famílias inteiras de indianos passeiam pelo templo mas distraiem-se mais com os turistas: nós! 🙂


Five Rathas
Seguimos o mapa que nos é dado na entrada e fomos dar ao templo mais bem preservado (e nosso favorito!): Five Rathas! Cada Ratha é uma carruagem esculpida numa só pedra de granito e dedicada a um Deus Hindu. São de tamanhos diferentes e o trabalho é impressionante e ainda nos deixa mais pensativos quando sabemos que nunca foram terminadas… Além das 5 carruagens, todo o espaço parece uma pequena vila antiga e o pôr-do-sol ajudou a tornar a nossa visita num fim de tarde incrível (e muito romântico)!


Um farol ao longe chamou por nós e dirigimo-nos para lá encontrando pelo caminho mais e mais motivos para fotografar. Mahabalipuram é realmente fascinante e um museu ao ar livre que apetece percorrer com o olhar e com os dedos, mas diz que isso ajuda na erosão. :\
Surpresa!
A verdadeira aventura do dia estava prestes a acontecer. Perto do farol encontrámos a rocha perfeita para nos sentarmos a admirar o por do sol. Não sabíamos é que estávamos em território alheio e hostil e rapidamente começámos a ficar rodeados de macacos a quererem de volta o seu espaço. Tínhamos escolhido um sítio demasiado alto e inclinado para uma fuga apressada… Saímos de fininho e conseguimos safar-nos sem mazelas mas não sem um valente susto. Mais tarde, uma família foi apanhada no caminho deles e não teve a mesma sorte, ainda assim sem incidentes de maior. 😉
Outro dos espaços arqueológicos preferido dos locais é a Krishna’s Butter Ball. No mínimo um sítio muito curioso: uma rocha gigante, 5 metros de diâmetro para sermos precisos, em formato cilíndrico que caída num plano inclinado desafia as leis da gravidade. E como não se explica, só pode ser obra de uma qualquer divindade. Há até várias rochas semelhantes no mundo, e já há explicação científica para a coisa, mas não é muito mais engraçado assim? Ora, além de ser obra do Deus Krishna que quando era pequenino adorava manteiga e deixou cair uma gota, é um óptimo local para o piquenique de fim do dia porque oferece sombra e é ao mesmo tempo parque infantil: o escorrega da cidade é aqui! 🙂

A praia em Mahabalipuram
Para além dos templos e do bairro turístico das guesthouses e cafés pseudo-chiques, Mahabalipuram ainda oferece a praia. Uma praia que recebeu a enorme onda do Tsunami de 2004 que recuou o mar e fez aparecer novos vestígios de templos que estavam submersos. Uma praia de pescadores, com lugar às vacas sagradas mas nem a um banhista para amostra. Na verdade, tal como a maioria das praias na India, não é muito apetecível a banhos…



Mas Mahabalipuram não nos chama pela praia, atrai-nos antes pela riqueza arqueológica de templos que nos fazem viajar para longe e nos lembram que a história também é transportada no que era apenas pedra e foi trabalhada e assim perdurou até hoje como riqueza da Humanidade. E nós viemos mais ricos de Mahabalipuram! 🙂






