No dia 9 de Novembro de 2016, saíamos nós de Mahabalipuram em direcção a Pondicherry, confiantes que tínhamos o bolso cheio, quando nos recusaram as nossas primeiras notas. Nessa manhã, o primeiro ministro indiano anunciara a retirada de circulação das 2 notas mais utilizadas na Índia, 500 e 1000 rupias. Uma medida de combate à corrupção e ao dinheiro falso que se pensa também subsidiar acções terroristas. De acordo com o banco central indiano, 86,4% de toda a rupia em circulação residia nas notas de 1.000 e 500. Ora, num país com mais de 1 bilião de pessoas, onde muito pouca gente tem uma conta bancária, estamos a falar do verdadeiro caos indiano.
Não nos apercebemos de imediato das consequências que esta medida teria na nossa viagem até nos depararmos com multibancos e bancos fechados durante 2 dias! Cheios de notas sem valor no bolso, que todos se recusavam a aceitar, vimos o caso mal parado…
Chegámos a Pondicherry cheios de fome e foi então que percebemos que a questão das notas era mais séria do que se pensava. Em todas as lojas, restaurantes e hotéis havia papeis afixados informando que não aceitavam notas de 500 ou 1000, as únicas que tínhamos. Confirmámos que os multibancos estavam fora de serviço, as casas de câmbio sem notas válidas e os bancos fechados. Ainda assim, pensámos que tudo ficaria resolvido se encontrássemos sítios que aceitassem pagamento com cartão. Habituados a tascos, que aqui são tão fáceis de encontrar, quando precisámos de um restaurante mais chique não encontrámos. Ninguém aceitava as nossas notas e ninguém aceitava pagamentos com cartão. E a fome, a fome essa aumentava…
Foi então que tivemos sorte! Num dos restaurantes onde entrámos, bem apinhado de gente, o patrão engraçou connosco e aceitou as notas que não devia. Deu-nos uma refeição completa e ainda nos deu troco em notas, essas sim, das que ainda valem alguma coisa! Ficámos agradecidos e muito bem almoçados!

Próximo passo, encontrar um sítio para dormir garantindo que aceitavam cartão, ou seja, subindo o budget. E foi por isto que no Hotel em Pondicherry Treebo South Avenue, um dos nossos melhores poisos desta viagem.
Dentro do nosso raciocínio ocidental, pensámos que nas estações de comboio haviam de aceitar as notas antigas. Podíamos então comprar bilhete para a nossa próxima paragem e adiar o problema sem comprometer o nosso itinerário. Depois de umas horas na estação percebemos que também não nos safávamos ali. As estações não aceitavam as notas antigas nem pagamento com cartão, situação que o governo indiano prometeu mudar no futuro no seguimento do caos gerado.
Estávamos presos em Pondicherry e acabámos por aproveitar mais da cidade. Acabámos foi por passar 2 dias a contar “tostões” e a substituir o caril por pizzas da Dominoes e comida de supermercado, os únicos sítios onde conseguimos pagar com cartão.
Foram dias em que o único tema de conversa foi este e o descontentamento de todos com quem nos cruzámos era grande. Todos nos lamentávamos, uns mais a sério que outros, mas ninguém compreendeu na hora o grande objectivo da medida anunciada. Para a maioria era apenas um grande disparate que os impedia de viver o dia a dia normal…
No dia em que finalmente os bancos abriram, corremos cedo para o mais perto do nosso hotel e estava fechado! Não queríamos acreditar… até que nos disseram que um outro banco, 2 ruas acima, estava aberto. Mais uma corrida para nos depararmos com a verdadeira escala indiana. Era cedo, tão cedo, mas a fila de gente com ar infeliz, com molhos de notas na mão, nitidamente tiradas de debaixo do colchão nessa manhã, era enorme. Recorremos ao mapa e decidimos arriscar um outro banco, umas ruas mais à frente. Melhorou! A porta não fechava mas a fila de gente ainda era curta o suficiente para cabermos lá dentro.


Centenas de pessoas impacientes com grandes molhos de notas nas mãos, sem qualquer noção do que ingenuamente no Ocidente chamamos fila indiana. Empurrões, filas sem ordem, num banco que mais parecia uma mercearia de bairro. Uns 5 seguranças fardados tentavam impor a ordem naquele caos mas sem grande sucesso. O nosso ar perdido deve ter alertado um deles que nos disse que precisávamos preencher um formulário. Aguardámos que voltasse para nos dizer que os formulários tinham acabado. Fim! Deu-nos a sentença como final e encolheu os ombros.
Furámos aquela espécie de fila rodeados de olhares incrédulos por verem turistas na molhada, e conseguimos falar com um funcionário do banco que, encostado a uma parede, observava o caos na terra de forma impotente, ou seria, despreocupada?! Confirmou que não havia mais formulários mas que alguém (alguém!) havia de arranjar mais e que devíamos esperar. Assim o fizemos por tempo que agora não consigo detalhar. Pelo meio emprestámos canetas, ajudámos a preencher formulários e fizemos parte de uma enorme massa humana zangada com toda aquela situação.
O formulário chegou e com ele mais novidades: eram precisas fotocópias do passaporte e havia um limite máximo de notas que se podiam trocar por pessoa. De formulário na mão voámos para a rua em busca da palavra Xerox. Não estava longe e só a personagem que nos atendeu mereceu toda aquela azáfama! 🙂

Novamente na “fila” do banco, esperámos a nossa vez demasiado pacientes e civilizados. Ao fim de algum tempo, lá percebemos que a postura tolerante e civilizada aqui não leva ninguém a lado nenhum, muito menos ao guichet. Na Índia, sê indiano!
Chegados na frente do pelotão, dezenas de braços e mãos esticam-se para o único homem que está a trocar notas e vai escolhendo aleatoriamente quem atender primeiro. Incrível! Mas a coisa funciona, bem ou mal! Sacámos o máximo de notas que nos deixaram e recebemos o mesmo em notas trocadinhas das pequeninas, daquelas que fazem qualquer pessoa parecer multimilionário. Finalmente pudemos respirar de alívio porque, ainda que com o dinheiro contado, já não morríamos à fome e podíamos seguir caminho.

Para nós, a situação foi-se resolvendo nos dias seguintes. Voltámos a visitar o Banco na cidade seguinte até conseguirmos trocar todas as notas antigas. Passámos horas a fio em multibancos que, ainda que com limite máximo de levantamento, ficavam sistematicamente sem dinheiro quando lá chegávamos.
Viagem à Índia estragada?
Atrapalhou? Sim, um bocadinho. Alterámos alguns dos nossos planos, comprámos menos souvenirs e provavelmente pagámos mais taxas do que tínhamos contado. Ainda assim, a viagem não ficou estragada e vivemos um momento histórico naquele país que nos deu mais uma história para contar. Para nós, afinal até foi fácil…
A situação foi bem mais dramática para muitas famílias indianas que viram a sua própria sobrevivência ameaçada. Há mesmo relatos de pelo menos 33 pessoas que perderam a vida em filas de horas num multibanco ou num hospital que se recusou a aceitar as únicas notas que as pessoas tinham para pagar. Casamentos que não se realizaram, agricultores que perderam colheitas inteiras, lojas pilhadas e agressões generalizadas.
Todo o comércio sofreu com isto, ninguém tem dinheiro para comprar nada e mesmo quem tem não compra porque os comerciantes não têm como dar troco. A bolsa de valores do país caiu a pique e toda a actividade económica desacelerou. Espera-se que a médio e longo prazo tudo isto sirva para reduzir a economia paralela que se estima equivaler a 40% do PIB. Assim, aumentando a transparência do sistema financeiro indiano, espera-se conseguir atrair mais investimento estrangeiro. Esperemos para ver…
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