Já estamos em Ho Chi Minh City, ou como os locais teimam em chamar, Saigão! Mudaram-lhe o nome em homenagem ao revolucionário e Presidente com o mesmo nome em 1976, um ano depois dos comunistas do norte terem controlado a cidade, mas a vontade e a memória do povo do sul não deixa ninguém esquecer o nome antigo!
O caminho até Saigão é revelador. Percebe-se facilmente que estamos a entrar numa região diferente do Vietname. Começamos logo por ver mais igrejas católicas em cada terra por onde passamos, mas das grandes que ofuscam alguns dos templos budistas que temos visto! 7% da população do Vietname é católica e o número de conversões tem vindo a crescer. Teoricamente, a constituição do país já garante a liberdade religiosa e aqui no sul, onde o catolicismo foi arma política parece que se nota ainda mais. Mas a prática religiosa ainda assim é diferente, com a reza a incluir, por exemplo, a queima de incenso tal como vemos nos templos budistas, e as casas particulares a ostentar enormes estátuas de Nossa Senhora ou Jesus Cristo nas varandas.
Foi também na chegada a Saigão que andámos numa auto estrada, pelo menos tal como as conhecemos, com separador central e portagens! Pena foi o autocarro não passar dos 70 km/hora, tornando a última hora, das 6 de viagem, infinita…
Mas de longe já se viam arranha céus, tudo indicando que estávamos perto da maior cidade do Vietname!
Depois do caos de Hanói, confesso que não vinha com grande expectativa para Saigão, mas seria imperdoável não pararmos cá!
Depois de escolhida a Homestay, por 10 dólares a noite, na zona dos backpackers da cidade, na Bui Vien, (coisa rara, ficámos logo na primeira que vimos, mas simpatizámos com a senhora!) fomos dar corda a uma gula de fast food: McDonalds! No Vietname, apenas nesta cidade há a cadeia americana de hambúrgueres mais famosa do mundo! Sem sinal de noodles, arroz thai ou pauzinhos, atirámo-nos de cabeça a dois Big Macs, sem vergonha nenhuma! 🙂
Estávamos prontos para o primeiro reconhecimento da cidade mas como às 17h30 da tarde já pouco tempo havia de luz, preferimos apanhar o autocarro 1 que atravessa 5 km da avenida principal, Tran Hung Dao, do District 1 até Cho Lon, a China Town no District 5.
É impressionante a densidade de mercados, lojas, bancas, qualquer pedaço de chão nos guetos desta China Town estão ocupados por vendedores. Como chegámos ao final do dia, o cenário era de lixeira com tudo a arrumar as barracas mas a deixar para trás cheiros e imagens pouco agradáveis…
Mas a China Town aqui é gigante, estende-se por vários distritos da cidade, e quando uns mercados acabam, um pouco mais à frente estão os da noite a começar. Frutas, carne, peixe, roupa… Tudo o que se quiser! 🙂
Ao final das primeiras horas concluímos que Saigão mantém ou eleva a confusão e caos na estrada de Hanoi!
Mais de 9 milhões de pessoas vivem nesta cidade, são milhões e milhões de scooters lado a lado ou mesmo em cima umas das outras! É um espectáculo de assistir! O trânsito caótico que se forma em especial nos semáforos e cruzamentos também é um dos pontos altos desta cidade! 🙂
Depois de uma noite bem dormida, no que afinal não é uma homestay mas uma lavandaria que por acaso também aluga quartos, partimos à descoberta de pequeno almoço! Duas sandes em baguettes frescas e estaladiças têm sido salvação para um início de dia Noodle free. 🙂
Começámos o passeio turístico a Saigão, seguindo uma torre bonita que avistámos ao longe! Era a Igreja Huyen Sy que à semelhança de outras que temos visto no Vietname, tinha logo à entrada uma imagem de Nossa Senhora de Lurdes (a da gruta!)! Infelizmente nao pudemos visitar por dentro porque estava fechada mas percebemos que ali há missa às 5 da manhã e às 5 da tarde! Madruga-se por aqui…
Disseram-nos em conversa de surdina, que a liberdade e tranquilidade aqui em Saigão são superficiais e que as pessoas continuam com medo de falar abertamente. O controlo do governo comunista nesta região, onde vivem muitos dos antigos militares do vietname do sul, e que lutaram ao lado dos americanos, existe e prova disso foi que, apenas há 2 anos atrás foi permitida a primeira homenagem pública ao Presidente católico Jean-Baptiste Ngo Dinh Diem, assassinado pelas suas próprias tropas (com o apoio dos EUA por ser um aliado incómodo) em 1963. Curiosamente, ou não, John Kennedy foi assassinado 20 dias depois…
A pé chega-se facilmente aos maiores pontos de interesse da cidade pois ficam quase todos no Distrito 1 (Saigão tem 18!) e aqueles locais mais escondidos ou momentos espontâneos apanham-se melhor a pé! Foi o caso do Tao Dan Park que nem vinha no mapa mas onde nos sentámos num banco de jardim a apreciar a ginástica matinal do pessoal local. Árvores, uma fonte, um arbusto em forma de dragão e uma torre Cham em miniatura pelo caminho. Estes parques, e há alguns pela cidade, são óptimos para respirar um bocadinho fora das estradas superlotadas.
Mais uns quarteirões e chegámos ao Palácio da Reunificação, também chamado Palácio da Independência. Não é um edifício bonito mas é muito importante para a história do país e o maior símbolo da libertação do sul. Foi deitando os portões deste Palácio abaixo que, em Abril de 1975, os tanques comunistas conquistaram a cidade.
A entrada, sem guia, custa 30.000 VND por pessoa e lá dentro é como se ainda ninguém tivesse mexido desde aquele dia, nem para limpar o pó!
No andar de baixo, estão as salas de reunião, e em cima salas ricas em decoração onde foram recebidas as personalidades estrangeiras mais influentes durante a guerra. Podem visitar-se também o escritório e o quarto do Presidente, e não faltam espaços de lazer com sala de cinema e um terraço com um heliporto que servia de nightclub! Até a cozinha se visita…
Na cave do Palácio, visitamos o bunker e seguimos por corredores estreitos, escuros e até um bocadinho assustadores, para o centro de telecomunicações e a sala de guerra, onde os velhos transmissores ainda estão guardados.
E a chuva teima em cair quando saímos de debaixo de telha, por isso fomos abrigar-nos para um café, com pinturas da nossa amada Veneza na parede! Dois Ice coffees depois e estávamos prontos para almoçar na porta ao lado! 🙂 Um Com Bin Danh, traduzido à letra, “Comida do povo”, os sitios onde se come melhor e mais barato no Vietname!
E quanto mais cheio de locais, melhor, porque só quer dizer que é bom! 🙂 Nestes Com Bin Danh, a comida já está feita e é só apontar, e por 1,5€ por pessoa saímos sempre bem satisfeitos com grandes pratadas de arroz e carne. Desta vez, eu optei pelo frango, o João pelo porco e saímos os 2 bem almoçados! Ainda nos ofereceram 2 bananas para o caminho! 😉
O caminho não era longo, o War Remnants Museum era já ali! O museu mais visitado de Ho Chi Minh conta apenas um lado da história, é totalmente faccioso, mas ainda assim não deixa de impressionar…
Aberto em 1975 como “The House for Displaying War Crimes of American Imperialism and the Puppet Government”, mudou de nome em 1993 como sinal das boas relações que se pretendem entre os 2 países, mas a exposição está cheia de mensagens com que americanos que a visitem continuam a poder envergonhar-se…
A entrada são 15000 VND por pessoa e colam-nos logo na camisola um autocolante de uma pomba branca a pairar em cima de bombas. Primeira mensagem entregue!
Ainda no exterior do museu, podemos ver vários aviões, helicópteros e tanques com a marca US AIR FORCE. Será que eles não os querem de volta? 🙂
O primeiro piso do museu mostra uma colecção de posters de propaganda política e fotografias a mostrar o apoio de personalidades e países como Cuba que se manifestaram contra a guerra no Vietname! Cópias destes cartazes podem ser compradas na loja.
Quando subimos aos restantes andares do museu, tudo fica mais complicado de digerir…são várias salas com fotografias dramáticas e muito explícitas de crianças, e não só, afectadas pelos bombardeamentos, Napalm e pelo uso de armas biológicas como o agente Orange que ainda afecta famílias até, pelo menos, à 3a geração. Dos 3 milhões de mortos desta guerra de 14 anos, 2 milhões eram civis…
É tão impressionante a exposição que ao escrever esta descrição o nó na minha garganta voltou…
Apesar de ter derrotado os EUA, é difícil dizer que o Vietnam ganhou…
Seguimos para a Praça de Paris, onde se encontra a Catedral de Notre Dame, construída pelos franceses. Na mesma praça está também a estação de correios central da cidade, num bonito edifício desenhado por Gustave Eiffel e onde, além de um mercado cheio de souvenirs (!) está um enorme mosaico com a imagem do Presidente Ho Chi Minh, ou, para amigos, do Uncle Ho.
O mesmo que, agora em estátua, está em frente ao Ho Chi Minh City Hall, a nossa etapa seguinte do passeio! Mais um belo edifício colonial francês que enriquece a cidade, mas como está actualmente em funções, não pode ser visitado por dentro.
Em frente ao City Hall ou City People’s Committee Head office, estende-se a Nguyen Hue até ao rio Saigão, uma grande e larga avenida onde estão as grandes marcas de roupa internacionais como a Dior, a Ralph Lauren ou a Channel e altos prédios empresariais.
E foi junto ao rio que demos a última caminhada do dia, enquanto admiramos o trânsito de final de dia…já vos disse que é maravilhoso de assistir? 🙂
O dia terminou num dos restaurantes especialistas em Pho, que não é mais do que Noodle soup, mais famosos da cidade: o Pho Hai Thien. Aqui, há noodles de vegetais que ganham a cor deles: laranjas, verdes, roxos…
E com a chuva a cair lá fora, soube bem a sopinha para terminar mais um dia em Ho Chi Minh. Ai, Ho Chi Minh não! Saigão! 🙂



































2 comentários
Uma lição de história. Continuação de boa viagem. Beijinhos
Aprendemos muito neste país! 🙂